domingo, 24 de julho de 2016

sobre morar fora (e mudar dentro)

Quando você mora na casa dos seus pais, você acha que tem direito. Que tava tudo ali, pronto, pra você. Um filme ensaiado com direito a "-porra,mãe  não gosto de carne seca,muito sódio", vou pedir no Bibi.
Demora a cair a ficha que se você vive debaixo de um teto que você não tá pagando, alguém tá pagando por você. Alguém tá trabalhando incansavelmente pra pagar a conta de luz, o bife sem gordura com arroz integral e pouco sal. Alguém tá pagando a empregada que arruma sua cama, lava sua roupa. Alguém tá pagando. E se você nunca teve essa responsa nas costas, amigo, se prepara que a parada é sinistrê. Eu fiz a escolha de sair de uma família classe média alta , com um apartamento de frente pra praia e café da manhã posto , com pão fresco ,do dia ,comprado pelo meu pai, todo dia despontualmente as 10, porque acordar cedo é inaceitavel. Minha empregada penteava o meu cabelo (sim) e já deixava pronto aquele omelete só de clara, porque imagina que absurdo, tocar a gema com minhas proprias mãos . Nunca me ofereci pra acordar cedo, descer e comprar pão  pro meu pai, ainda reclamava que o pão tava "queimado demais". Ou não era integral. E me deixa uma grana, porque hoje eu tenho que sair. Quanto absurdo. Quanto. Eu perdi as contas de quantas coisas absurdas a gente faz porque é incapaz de enxergar que o mundo não gira em volta do nosso umbigo.Pois é, não mesmo. Eu troquei essa vida pra correr atrás do que era melhor pra minha carreira. E pra ser ...pobre... em Nova Iorque. (Não se iluda com o Nova Iorque, por favor) . Todo mundo acha que morar em Nova Iorque é comprar na 5th Ave, fazer pic nic no Central Park, ter duas horas de drama sobre relacionamentos pra colocar no diário como a Carrie Bradshaw e depois ir tomar uma breja num rooftop chic na 34, pra desabafar com as amigas. Deixa eu te contar um segredo: Nova Iorque é um querendo comer os órgãos do outro com vista pro Empire State. Não to falando pra você que se vier pra cá  vai continuar na mesma bolha com seu pai pagando o oxigênio que você respira ,só que em dólar . Eu to falando com quem rala,  toma conta da própria vida. Amigo: aqui todo mundo quer o mesmo que você. Se você se acha muito bom, em qualquer carreira, Ou você calça as sandalias da humildade e começa do zero de novo, Ou continua parado em casa esperando sua vó vir te dar estrelinha de melhor garoto da quadra. Aqui igual a você tem no minimo 100, melhor que você tem Mais de mil, com o dobro da sua disposição e o triplo de produtividade.
Agora eu entendo o valor que o profissional ganha em qualquer lugar do mundo quando "sobreviveu" a Nova Iorque. Porque se você se destaca aqui, eu assino embaixo que você faria 10 vezes mais em qualquer lugar do mundo. 
Faria, garanto.  Aqui um leão por dia é pra quem é mirim. Aqui ou tu veio pronto pra matar a manada com dente, ou não dura 3 meses. Você entende que aquela casa bonita não é de graça, nunca foi. E que você tem que parar com essa idéia ridicula que a vida te deve coisas porque você é especial mais que Xuxa contra baixo astral. Aqui não tem conversa, é preto no branco. Não tem , jeitinho, ajudinha,amigo do pai pra dar um empurrãozinho NÃO TEM! Seu amigo te cobra 40 dólares (por noite) pra dormir na casa dele ou dar água pro seu cachorrinho, nesse nível. Não tem. E se achar um amigo de verdade agarra, que é raro, com sorte um ou dois. E você deixa de ser uma pessoa e passa a ser um contato. 90% das conversas acaba em "se souber de alguma coisa me fala". Você entende que não precisa de personal trainer, de salão 3x na semana, de unha feita. Não,não precisa. Não precisa de nada, quase nada. Você despe as futilidades e veste uma roupa honesta feita de você. Um encontro bem profundo. E ninguém nunca , por nenhum preço pode te tirar isso. Só você sabe o preço de passar semanas comendo miojo, não ter grana pra comprar nada que não seja uma pizza de um dólar, lavando blusa na banheira porque lavanderia é caro. Pra caramba. Só você sabe, quanto custa sua liberdade de dizer "paguei as contas esse mês só fazendo o que eu gosto. Meu Deus, o valor é indescritível , de nùmero um: "paguei minhas contas,e, dois "fazendo o que eu gosto" basicamente nenhum dos meus amigos de volta no Brasil que trabalham na minha área se sustenta completamente sozinho . Por jobs que eu corri atras, sozinha (a cada 800 não tem um sim maravilhoso). E ganhei, também sozinha. E que sensação boa. Morar no cu do Judas do Brooklyn, não comprar uma peça de roupa sequer por mais de um ano, ter pra mais de meia cabeça de raiz pra fora,parecendo o Chucky mas assim, porque eu quis, e como quis, e como é lindo . Eu valorizo meus pais agora pelo menos um milhão de vezes mais. Gratidão infinita por terem se doado tanto e feito tanto. Eu valorizo meus amigos de longa data demais, e, eles sabem quem, sinto falta todo dia. E me valorizo tanto. Mais que qualquer coisa. E viver aqui aqui É Mais que uma experiência, é uma escola que te ensina que você é um individuo que colabora diretamente com o funcionamento do mundo. Nem que seja do seu mundo. Então por favor, não escolha ser um inútil. E quando eu olho pra tras e vejo aquela garota, preocupada em repetir a roupa , gastando como se não houvesse amanhã (um dinheiro que não trabalhou pra ter) vivendo em torno das proprias futilidades e valorizando uns nego que não valem o guardanapo que eu seco a boca eu diria: que burra, dá zero pra ela. A Carol pobre de Nova Iorque é muito mais rica que você. Aprende um pouco com ela. E se ela pudesse dar um conselho pra todo mundo que é importante pra ela, seria : por 6 meses ou 600, viva fora da bolha é se encontre com você.
Um beijo direto do trem A.